Olá Galera! Amigos,conhecidos e futuros amigos!
Este Blog tem por finalidade estabelecer um contato com grandes amigos e pessoas importantes para mim. Nele Postarei um pouco de mim, do meu pensar, dos momentos que ficaram marcados em minha vida e também um pouco do que gosto,textos que acho interessante, paisagens! Encontrei aqui, neste espaço, uma maneira bem legal pra fazer isto e conto com ajuda de vocês para construí-lo. Um Grande Abraço a todos!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A LAVAGEM DO BONFIM E A LAVAGEM DA ALMA


"A água me contou muitos segredos

Guardou os meus segredos
Refez os meus desenhos
Trouxe e levou meus medos"





Todos os caminhos neste dia em Salvador-BA levam ao Bonfim. É hoje a famosa lavagem do Bonfim com o cortejo que se segue pelas ruas da cidade baixa até a famosa Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, padroeiro mor do estado junto com Nossa Senhora da Conceição (da Praia). 

A festa surge num contexto histórico de segregação e opressão. Os negros não podiam entrar na Igreja dos brancos (e ricos) senão para limpá-la e deixando-a perfumada para seus senhores que rezarão na missa posteriormente. Segundo me contaram aqui em Salvador, às vésperas da festa do padroeiro os negros se reuniam à mando de seus senhores (não por vontade própria) para a limpeza da Igreja. Por estarem longe dos olhos dos seus senhores, que achavam estar acontecendo ali mera limpeza, os negros escravizados se alegravam cantando canções em Iorubá

Neste ambiente o Sagrado se manifestava, dando alento ao seu povo por meio da presença das divindades africanas conhecidas como orixás. Entre elas, uma era considerada a mais suprema: Oxalá. O senhor que é todo misericordioso, amoroso e que dá a paz.Que possui ainda uma paternidade envolta de compassividade e sabedoria. Tal como era o homem divinizado exposto num madeiro adornado com pedrarias e metais nobres no altar principal da Igreja: o Senhor do Bonfim. É neste exato momento que Jesus e Oxalá dão as mãos e passam a ser uma única coisa. 

A cor branca, liturgicamente usada nas festas do Senhor Jesus é a mesma das tribos africanas que reverenciam os deuses funfun (que usam pano branco) como Oxalá e Oxaguiã (Oxalá moço). Assim não há mal aos olhos da igreja opressora os negros portarem vestes brancas. E o tempo passou... e este costume de botar roupa branca para ir ao Bonfim está até hoje entre adeptos do candomblé e cristãos devotos sendo difícil saber se é para reverenciar um ou outro. Houve pois o momento de maior opressão que por um tempo quis bloquear a entrada total dos negros na Igreja. A mesma que anteriormente foi construída e lavada por eles para a festa dos brancos. Fizeram grades, chamaram a policia, excomungaram... 

Assim restaram a escadarias como memória do costume antigo adquirido no contexto da escravidão. Há quem pense que se trate de uma escadaria longa e exaustiva... mas são apenas alguns degraus. O ato de lavar, hoje, transcendeu a limpeza do espaço físico. Hoje "o lavar os degraus" diz de uma ação necessária à alma. Diz de lavar as nossas "moradas interiores" afirmadas existentes pela mística neoplatonica cristã. É se limpar de todo o egoísmo, preconceito, intolerância, tristeza e toda sorte de más ações. É fazer alguma ação que limpe verdadeiramente o coração deixando-o puro para acolher o Divino. Isso independe da escolha de uma divindade "Jesus ou Oxalá". Ambas testemunham o amor misericordioso do Ser Supremo que nos criou. É claro que cada qual ao seu modo e à sua cultura conforme suas teologias. 

Neste dia da "lavagem do Bonfim" o Cristo e Oxalá dão as mãos e seguram juntos o grande alá (pano branco) da paz, que é, capaz de cobrir todos os seus filhos e filhas sem distinção de cor, gênero, orientação sexual e crença. 



Por fim, lavar a alma e estar em paz é o compromisso de todos que hoje afirmam ter fé para ir a pé à Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, coração religioso da Bahia.

Thiago Felipe


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sincretismo na Bahia: São Lázaro e Omolu. Orixás e Santos Cristãos da cura, da morte e dos empobrecidos.


É comum na Bahia considerar o dia de segunda-feira, dia santo para a honra dos santos cristãos Lázaro e Roque e dos orixás africanos Omolu e Obaluayê. A Igreja de São Lázaro, na Estrada Velha de São Lázaro, região entre os bairros de Ondina e Federação, atrai centenas de devotos da Igreja Católica e dos Terreiros de Candomblé da cidade do Salvador. Todos em geral vestidos de Branco, portando contas, rosários, medalhas... objetos religiosos que expressam a fé nos santos e nos orixás.

Lázaro, irmão de Marta e Maria era grande amigo de Jesus. Segundo a Bíblia foi ressuscitado por Jesus em Bethania. Atesta algumas tradições cristãs que o santo evangelizou na Ilha de Chipre e lá provavelmente morreu. O texto bíblico mostra com profunda sensibilidade parte de sua história e evidencia que Lázaro era muito querido pelo Cristo, pois este chorara ao saber da noticia de sua morte. Suas irmãs, Marta e Maria, mulheres simples também mui estimadas por Jesus já haviam perdido as esperanças, pois Jesus chegara “tarde” demais. “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”,“ Senhor já cheira mal, é o quarto dia” eram as vozes das irmãs Marta e Maria desoladas pela falta do irmão já com o cadáver em decomposição a aguardar apenas o tempo para cicatrizar a dor do irmão que partiu para o outro mundo. Porém o Cristo, portador e arauto da vida em abundancia dá a ordem que re-estabelece as forças vitais “Lázaro, vem para fora!”.  E Lázaro voltou a viver! Lázaro não deixou escrito como era o reino dos mortos e se de fato este plano espiritual existe, mas, testemunhará a vida restituída por Jesus, seu amigo e mestre até que experimente novamente a irmã morte.

Roque, um francês, nascido em Montpellier, na idade média, com data imprecisa, era um peregrino penitente, sua imagem atesta isto ao ser representado com as vestes dos peregrinos que partem rumo a Compostela na Espanha em visita ao túmulo do apostolo São Thiago Maior. Pouco se sabe de sua vida com exatidão. Para uns teria sido um enfermeiro taumaturgo que curava as pessoas vitimadas pela peste negra, para outros apenas um eremita que isolara na melancolia das florestas, seguindo-se a partir destes fatos uma série de narrativas lendárias fortemente manipuladas pelo imaginário popular da idade média. Conta ainda uma tradição que alguns cachorros lhe curaram as feridas das pernas, apenas com as lambidas e que estes cães lhe traziam o pão diário durante o isolamento da floresta. Verdade ou não assim Roque é representado na iconografia cristã: um homem com pernas feridas e cachorros ao redor. É invocado pela cristandade nas ocasiões de epidemias e toda sorte de doenças. A ele foi erigida muitas igrejas pela Europa a fora, especialmente nos períodos em que vigoravam as epidemias dizimadoras de grande parte das populações.
Os Santos Católicos Lázaro e Roque chegaram ao Brasil graças aos portugueses que aqui se estabeleceram. Numa época em que epidemias eram alastradas pela cidade, nada mais conveniente que rezar a estes santos e erigir igrejas a estes pedindo proteção.
O fenômeno do sincretismo religioso, objeto de estudo de antropólogos e historiadores, fez com que estes dois santos fossem sincretizados com os orixás africanos Omolu e Obaluayê. A palavra sincretismo possui em sua etimologia o sufixo grego “syn” que diz da identificação ou união com algo, assim como é expresso na palavra ‘Sim’bolo, sendo aquilo que une, contrapondo ao “dya” como aquilo que aparta ou separa, daí os significados de diabo e diabólico como tudo que é separado ou distante ou que cause divisão.  O sincretismo possui então este sentido de união de crenças e não de disfarce ou mistura como é freqüentemente comentado.

Na época da escravidão, os negros, no desejo natural de todo ser humano de se conectar com o Sagrado, privados, porém deste direito, conseguiram identificar nos santos católicos as características de seus Orixás. Assim como os santos católicos são chamados protetores e intercessores, os Orixás também o são, uma vez que a palavra “ori” significa cabeça e “shá” pode significar guardião, entidade ou espírito. Portanto temos um guardião da cabeça que podemos comparar por analogia ao anjo de guarda dos cristãos.
Omolu ou Obaluayê[1], segundo algumas pessoas das religiões africanas é um orixá único diferenciado apenas pelas etapas da vida: um é adulto e outro é idoso. É uma divindade misteriosa, profundamente respeitada e temida. Seu culto é relacionado com a terra, às doenças e com o reino dos mortos. Orixá também relacionado ao tempo que passa, portanto à finitude que se instaura em um dado momento da existência de algo. Contam as narrativas que Omolu, filho da Orixá ayabá[2]Nanã[3] ao nascer fora rejeitado pela mãe por nascer com marcas pelo corpo todo. Omolu foi abandonado por Nanã na praia ainda bebê quando alguns caranguejos morderam suas feridas o deformando ainda mais. Este fato é sabido de todos os iniciados da religião yorubá no Brasil atestado pelo costume dos filhos deste Orixá não poderem comer caranguejos por lembrar a dor sentida pelo orixá. Na praia, Omolu foi encontrado por Iemanjá, a deusa das águas salgadas, e, por ela foi adotado e aliviado das feridas. As feridas cicatrizaram, mas as marcas não sumiram fazendo com que as pessoas o repugnassem e se afastassem deste. Iemanjá em toda a sua ternura de mãe lhe fez uma roupa com a palha - da -costa cobrindo-lhe desde a cabeça até os pés. Quando ocorreu a divisão dos domínios da natureza entre os orixás, Omolu ficou com a terra, elemento de onde emerge todo vegetal necessário à sobrevivência dos animais, inclusive do homem. Ficou também com as doenças em especial a lepra e a varíola.
A terra, desde os tempos antigos, sempre esteve ligada ao culto da vida e da morte. “Do pó viestes e ao pó retornarás” (livro do Gênesis). É da terra que surge as hortaliças, legumes e frutas e na terra a maioria das civilizações enterravam seus mortos. Podemos dizer que o Omolu é o orixá da vida, da subsistência e da morte pois a semente precisa morrer para brotar, se consome para gerar o broto que se transformará em alimento. Conta uma lenda que certa vez na África houve uma grande seca e escassez de alimento, quando em dado momento, este Orixá fez um grande banquete dando comida a todos os orixás, provando ser ele o senhor da terra e digno de respeito por todos os que outrora zombavam dele por sua aparência. Este banquete, conhecido por “Olubajé”, é celebrado ainda hoje, nas casas de candomblé, geralmente no mês de Agosto, quando uma série de comidas, inclusive o “duburu” (pipocas) que é a comida preferida de Omolu são distribuídas a todos os presentes em cima de uma folha venenosa chamada mamona, trazendo assim o belíssimo ensinamento de que sem o alimento morreríamos e também elucidando que a vida pode ser mais saborosa que a morte.
E o que tem a ver Omolu/Obaluayê com São Lázaro e São Roque?
São Lazaro e São Roque é freqüentemente representado com muletas e feridas, dando a entender uma situação de doença. Omolu como já foi dito possui em seu corpo muitas marcas, e, no candomblé dança de forma mais encurvada, feito o andar de Lázaro na velhice e também de forma mais lenta e introspectiva como os leprosos ou quem porta muletas. Assim como São Roque, Omolu também é festejado no mês de Agosto. É neste tempo que os terreiros saem às ruas com seus tabuleiros de pipocas pedindo donativos, caminhando horas debaixo do sol, como São Roque, o peregrino que caminhava penitentemente a Compostela. 

À pessoa do pobre e oprimido é associada a Omolu/ São Lázaro[4] e em honra destes deve-se praticar a esmola como atitude de devoção e estima aos santos. O fato de Omolu ser desprezado pela sua aparência “feia” [5] e pela rejeição sofrida o une de maneira belíssima aos marginalizados da sociedade. É justamente este “syn” que une as coisas e fatos, que nos revela a proximidade do santo com os pobres e marginalizados da sociedade. Assim também o é com os leprosos freqüentemente desprezados por classes mais afortunadas ainda nos dias de hoje. Por meio desta espiritualidade e mística do sofrimento, o próprio Omolu é que vem nos lembrar, que a peste, a doença e a morte são situações que atingem a todos, pobres e ricos. Curiosamente, a Igreja de São Lázaro e São Roque em Salvador, fica próxima a um extinto leprosário que funcionava no passado, totalmente afastado do centro da cidade naquela época. Mais uma vez vemos Omolu e Lázaro como uma das poucas entidades ao lado dos pobres e doentes protegendo estes com sua presença parceira e amiga.

O Velho, como docemente é chamado Omolu, nos revela (ou esconde) sua face sábia. Os anos vividos por este, tudo o que este já passou, são capazes de gerar ensinamentos de vida a todos nós, assim como o velho Lázaro, amigo de Jesus Cristo que ensinou muita coisa aos seus vizinhos e até mesmo longe, na Ilha de Chipre como atesta a lenda. Por ironia do destino, ou mesmo porque já fora predestinado pelos deuses, bem próximo à igreja está instalada a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA[6], centro acadêmico de dispersão do conhecimento por excelência que pretende formar pessoas no campo do saber.
E sua relação com a morte?
A Igreja católica estabelece são Lazaro como protetor dos moribundos, dado ao fato que este já passou por uma experiência de morte antes. Assim é para os cristãos enfermos, um sinal de esperança da vida e saúde que pode ser restituída. Omolu, senhor ou rei da terra como atesta o nome Obaluaiyê (Oba= rei Aiyê= terra) recebe no seio da terra o corpo já sem vida das criaturas. Assim como o Hades, na Grécia antiga, Omolu detém o domínio do reino dos mortos exercendo influência sobre os espíritos (eguns). Há algumas oferendas e trabalhos deste Orixá feitos somente nos cemitérios, considerados morada de Omolu por excelência. Ao longo, da estrada que liga a Igreja de São Lazaro à Federação são deixados “ébós” de limpeza para se livrar dos eguns e das negatividades. Usa-se ainda, o contra-egun, cordão de palha trançado (a palha é domínio de Omolu, pois é a folha morta que resiste) para se proteger e se livrar dos eguns. A mesma palha que veste Omolu é usada para espantar estes espíritos, que, por vezes atrapalham os seres humanos. Talvez a palha lembre aos eguns toda autoridade que Omolu possui sobre eles e por isso estes se mantêm longe de quem usa o cordão de palha atado ao corpo. De forma curiosa, em Salvador, berço da religião yorubá no Brasil, o cemitério mais antigo, chamado Campo Santo, fica nas imediações da Igreja de São Lazaro que por sua vez se unia ao antigo leprosário. Outro cemitério mais recente, em outra localidade é chamado não por caso de Quinta dos Lázaros.


Exercendo influência sobre as pestes, podendo curar ou exterminar, o orixá também, parece decidir que vai morrer ou não. Dado a estes aspectos, Omolu é profundamente respeitado no Candomblé. Sua saudação “atotô!” significa “silêncio”, convidando todos os adeptos à reverência, justamente por esta ali manifestado um orixá que pode destituir a vida de alguém. A sua dança chamada “Opanijé” é misteriosa e alude apenas a observação e veneração.
            Graças à sabedoria do povo negro, o culto a Omolu e Obaluaiyê, sobreviveu ao tempo. Não foi uma incorporação de valores cristãos e europeus à crença africana, mas, uma sabedoria capaz de unir (syn), ou melhor, “syncretizar” os elementos característicos dos Orixás aos santos católicos. Nos dias de hoje, as pessoas católicas ou candomblecistas, recorrem ao Santuário de São Lazaro clamando a cura pelas doenças e pedindo condições dignas para sobreviver. Uma experiência de fé incrível (na verdade, por demais crível) na cidade de Salvador: uma devoção que atravessou séculos e ainda hoje continua sendo referencial das religiões cristãs e africanas ao mesmo tempo. O que mais chama atenção é a presença amistosa de pobres e ricos na comunidade eclesial local. O que mais quer os ricos que possuem “tudo” junto daquele que é todo a favor dos pobres que “nada” possuem? Certamente, aquilo que ser humano nenhum pode dar: a saúde, a cura e a vida.


 Thiago Felipe Lima da Mata
Julho de 2013, segunda-feira,
dia dedicado a São Lazaro, São Roque, Omolu e Obaluaiyê.

Referências:
VELLOSO, Jorge. Candomblé de rua:o Bembé do Mercado. Salvador: Casa de Palavras/FCJA,2001.
VERGER,Pierre Fatumbi. Notas sobre o culto dos orixás e voduns na Bahia de todos os santos, no Brasil, e na antiga costa dos escravos, na África. São Paulo: Edusp, 2000.
BIBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.



[1]  A questão do nome do Orixá é por demais complexa para se tratar aqui, pois, o povo de santo, estabelece qualidades e nomes próprios que diferenciam o orixá sutilmente, porém existem qualidades centrais como o uso da palha, o domínio dos mortos e doenças que parecem agregar em algo uno. Algumas qualidades ou nomes dados a este orixá podem variar de acordo com a origem deste na África. Verger apresenta nomes como Azoany, Sapatá, Xapanã, Molu, Ajunsu, Jagun, Abaluayê ligados a diferentes tribos e regiões africanas. Mais em Salvador, em geral se diz do Orixá como Omolu ou Obaluayê.
[2] “Ayabá” termo yorubá para nomear em geral as divindades femininas sendo antônimo de “Oboró” destinado aos orixás do sexo masculino.
[3] Orixá dos pântanos, manguezais e lamas ligada ao culto dos mortos e da velhice.  Omolu é considerado pertencente a família Jêje junto com seus irmãos Oxumaré, Ossanha, Ewá ,Iroko e sua mãe Nanã.
[4] Pode-se estabelecer também uma relação com outro Lázaro descrito na Bíblia. Contudo é bem improvável que este Lázaro tenha existido realmente e a história contada por Jesus seja apenas mais uma parábola.
[5] Existe uma lenda que Iansã, a deusa dos ventos, descobrira o rosto de Omolu fazendo revelar um rosto muito lindo fazendo com que esta o seguisse pelo resto da vida. Existe uma variedade de Iansã, chamada Iansã de Igbalé que vive junto de Omolu no reino dos eguns (mortos).
[6] O atual prédio da faculdade funcionava no passado como convento das freiras de Santa Úrsula (Ursulinas) conforme atesta uma placa antiga fixada no casarão.

terça-feira, 18 de março de 2014

Do Calvário da Judéia às Montanhas de Minas Gerais: A via-sacra do povo sofrido sob a luz da religiosidade e da fé.

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.”.

Acredito que muita gente nem sempre se interessa em ler as minhas notas de face book. E não me chateio nem um pouco com isso. Pois todo mundo tem o direito de achar besteira, assim como eu acho em muita coisa que leio nas redes sociais. Mas ninguém poderá tolir a minha liberdade de expressão já que como diz o poeta Fernando Anitelli “o post é voz que nos libertará!”.
 É comum eu sempre escrever sobre algum evento fazendo relação com a religião, folclore, tradição e simbologia do nosso povo ainda que não me sinta preparado para fazê-lo em nível acadêmico ou em outro que seja em vias formais. Quase sempre fiz alusão aos orixás e às coisas daqui da Bahia onde resido hodiernamente. Não me recordo de ter  escrito algo sobre meu estado que amo tanto “Minas Gerais”. Minas assim como Bahia tem um vasto universo cultural multidifuso em todo seu imenso território. Muito me é prazeroso falar do meu povo. De sua cultura que só quem conhece bem saberia o quanto é esplêndido este “trem”. Mais do que o pão de queijo, a cachaça e doce de leite, Minas trás outros deleites como as tradições religiosas. Nestas tradições vemos a mais sublime expressão do barroco imortalizada nas Igrejas Antigas como as de Ouro Preto, Congonhas, Sabará e Mariana com obras de Athayde e Aleijadinho.
Nós herdamos a fé cristã dos povos europeus que vieram aqui para tirar nosso ouro e nos “ensinar a rezar”. Em geral fomos batizados e fizemos nossa primeira comunhão, crisma... conforme a religião já que éramos obrigados pelos nossos pais. Não comemos carne na Sexta-feira da Paixão até mesmo sem questionar, mais por hábito do que pelo sentido implícito no ato devocional obrigatório segundo a Igreja. Neste imenso clarão que é a mística do povo mineiro é incontestável a riqueza simbólica e religiosa da Semana santa. Tradições antiguíssimas que ainda hoje atraem curiosos, pesquisadores, turistas, cristãos ou não. Nesta semana tão importante para o povo católico a cristandade revive os momentos “finais” da vida de Cristo sob a égide do Mistério e dos dogmas da salvação.
Em uma cidade do interior de Minas Gerais, cercada pelas montanhas do Espinhaço donde desce cachoeiras belíssimas... Onde uma neblina matinal é extinta aos poucos pelos raios do sol nascente... Onde existe gado e belos pomares... onde não tem asfalto e nem água encanada... onde a vida é simples, a gente é pouca e a fé é tamanha... acontece a semana santa antecipada pela quaresma que é reconhecida pelos panos roxos que tampam os santos na Igreja.
Na sexta -feira santa, Dona Maria acorda cedinho. Nem pensa em pegar hoje na enxada da horta nem em seus baldes usados para transportar a água que sempre busca na nascente distante de sua casa. Troca tudo isso pelo seu rosário já faltando algumas contas. Dona Maria, assim como seu marido José, preza muito um cafezinho adoçado com rapadura tirada das canas que têm que cultivar no quintal. Mas nesta sexta -feira bendita despreza tão deleitosa bebida, assim como o cigarro de palha. Fazem isso de coração em reverência e penitência pela paixão de Jesus Cristo. Todos os seus sofrimentos, vividos na labuta diária parecem ser hoje insignificante perto da paixão daquele que sofreu a dois mil anos atrás a milhares de quilômetros do seu pomar já sem frutos prenunciando o inverno.  Depois de rezar, acorda seus filhos, tomam banho rápido com a água aquecida pela serpentina do fogão á lenha.  Arrumam-se com toda simplicidade e modéstia, pois o dinheiro da família mal compra os alimentos quem dirá roupas caras. Mas quanto zelo eles tem! Os cabelos de Mariazinha, a menor, estão cheirosos como a orquídea perfumada que se enraíza no pé de manga-ubá do quintal. Correm para a cidade. A “missa” é as três...logo em seguida é a procissão do Senhor morto. Este ano terá teatro contando os últimos passos de Jesus. Todos estão ansiosos para ver. Luiz o mais velho será discípulo figurante na peça. Está muito feliz por isso. Um padre velho celebra o ato da adoração da Cruz, pois neste dia, embora seja desconhecido para muita gente, não se celebra missa alguma.
A melancolia e nostalgia parecem invadir a Igreja. O sol parece nem querer brilhar. Uma tristeza estranha paira sobre o lugar. Se fecho os olhos tenho vontade de chorar. Termina a celebração e é possível fazer um lanchinho com os saborosos biscoitos de polvilho da mamãe feitos na quinta-feira. Luiz dá um show de interpretação na hora da via-sacra ao vivo. Será chamado para o ano que vem com papel mais notável. A mãe se emociona com o filho ator que sonha em ser doutor.
Começa a procissão. José, pai de Luiz e Mariazinha é chamado para segurar o pesado andor da imagem do Senhor dos Passos. Que imagem belíssima! Parece ser real. Até cabelo e olho brilhante possui. É do século XVII, barroco da mais bela expressividade!  Na hora em que o andor segue a rua abaixo, José pensa que assim como o Senhor da Cruz, ele também carrega o seu fardo tendo que dá duro na lavoura para poder sustentar a família. Mais é com a fé no Senhor dos Passos, como é chamada a imagem, que ele caminha com saúde e ânimo nas outras semanas do ano que nem sempre são santas. Logo atrás do andor de Jesus segue-se outro cheio de flores brancas e azuis com uma imagem tristonha da Virgem Maria. É a Nossa Senhora das Dores toda lacrimosa com seu coração transpassado por uma espada prateada. Dá dó ver ela assim. Que lindos olhos ela possui. Dona Maria assim como a Maria do andor também se reconhece no pranto explicito na estátua. Ela chora sempre no quarto à noite, escondida de seus filhos e do marido por achar difícil a vida. Mais em questão de minutos louva ao Deus bondoso por manter sua família com saúde e longe da violência. Ela pede a Mãe de Deus que chora para que seus filhos tenham muitas alegrias na vida. Que lhes afaste o mau pranto.
As luzes de vela e um cheiro de manjericão parecem provocar um estado hipnótico na multidão...mas bem longe de sugerir algum ópio para o povo. As mesmas ervas usadas nos chás e temperos, estão ali agora cobrindo a imagem do Senhor Morto, descida da Cruz á poucos minutos. O padre fala bravamente: “Jesus morreu por todos nós! Morreu para dar Vida a todos!” Estas palavras entram no coração e incomodam. Quer dizer que tudo isso não termina com a morte?
Encerrado o ato litúrgico. Já são quase 21 horas. A família volta para seu lugar na roça. Feliz por mais um ano de semana santa. Comentam da peça, das imagens, das beatas, da força de Seu José ao carregar o andor...
 A tristeza foi-se. Agora só se pensa na missa do Sábado de Aleluia. As crianças acordarão cedinho para tacar pedras e fogo no boneco que representa o Judas que traiu Jesus. De noite haverá uma imensa fogueira na porta da Igreja que nem aquelas de São João. O Padre muito bem vestido irá proclamar para todos que Jesus voltou a viver. As crianças não entendem muito isso e pra ser sincero nem os adultos. E entre as montanhas de Minas... é rememorado mais uma vez tudo que aconteceu numa outra montanha chamada Golgóta no país da Judéia. E ao pé da serra, na luta da vida, na melancolia e em família, a tradição da semana santa persiste.

Ah!!! Jose trabalhou um pouco mais e Maria lavou roupa para uma dona rica da cidade na segunda-feira. Sobraram uns trocados para garantir ovos de páscoa para as crianças. No domingo terá a galinhada. Desta vez quem irá morrer será a galinha mais gorda do quintal que será servida com um delicioso quiabo ensopado e um angu de fubá do moinho d’água. José poderá tomar sua cachaça antes da ceia pascal e fumar seu cigarro de palha. Não faz mal ao espírito é para celebrar.

Thiago Felipe Lima da Mata/Março de 2014


*Fotografias retiradas da Internet

sábado, 8 de março de 2014

A LAMA DE NANÃ E O UNIVERSO DAS MULHERES: Berçário de Toda Vida.



Há algum tempo convidado pela Professora Uilma participei de um projeto da Faculdade de Educação da UFBA chamado “Maré de Saberes”. O Projeto era focado no convívio com as marisqueiras que são trabalhadoras  nos manguezais de algumas cidades do Recôncavo baiano  como Salinas da Margarida, São Sebastião do Passé, Acupe e Bom Jesus dos Passos. O Professor Lourenço, Doutor em Filosofia sempre me dizia que, eu, sendo mineiro teria que ser muito grato a todo conhecimento do simbólico e da cultura local que me eram repassados por aqui na Bahia. Sendo assim quero render uma singela homenagem às mulheres desta terra e à Mãe Terra que aqui se faz presente.
Com enorme faixa litorânea, o estado da Bahia possui também uma considerável faixa de manguezais. Enquanto os homens trabalham em outros ofícios como a pesca em alto mar, as mulheres se dedicam às tarefas do mangue fazendo do siri, caranguejo e mariscos fontes de seu sustento. Na maré baixa elas saem à procura de mariscos como o mapé, sururu, chumbinho e sarnambi. Ficam horas reclinadas sob o calor do sol cavando na areia até encherem a cesta ou o balde. Depois, em suas casas, vão para um fogão improvisado de blocos ou tijolos, que alimentados com a lenha nativa ou de caixotes de feira sustentam a lata com água à ser fervida com os mariscos até abrirem as cascas. O marisco é retirado de dentro das conchas e armazenado em geral em embalagens contendo 1kg  que são vendidos a um preço nem sempre justo a todo trabalho tido pelas mulheres nas feiras da grande cidade.
Na Bahia de Todos os Santos e Orixás a senhora Nanã, sincretizada como Santa Ana é a divindade dos manguezais e das águas lamacentas. É a orixá Ayabá mais velha. Ela conhece, portanto, os segredos da formação do homem, pois dos domínios dela (terra) ele lhe fora plasmado. Nanã é a representação africana-brasileira de Géia ou Gaia, a Mãe Terra. Ela conhece os segredos da existência e somente ela detém os mistérios de sua gênese e do seu regresso ao seu seio. Nanã-Terra é capaz de fornecer a energia que desperta a vida na semente garantindo assim a manutenção da vida dos animais por meio do brotar dos vegetais. Curiosamente, em outras culturas, como a hebraica, a terra é participante ativa na criação do homem. O livro do Gênesis conta que Yahweh formou o homem e a mulher da terra. Da terra foram criados e à terra retornariam. O elemento Terra traz consigo a essência da vida e da morte. É o leito que desperta o homem, pois o homem cresce e sobrevive graças ao sustento dos alimentos brotados dela. Mas, é o leito onde retornará sob alguns palmos de terra como se vê na cultura funerária ocidental cristã. Geia a grande titã grega dá origem sozinha à vários elementos e deuses, pois ela é por excelência fecundidade, não necessitando em primeiro instante da essência masculina para procriar. Assim também a velha Nanã, recusa a participação masculina nos seus axés declarando-se independente de Ogum (representação masculina) para se alimentar e sobreviver.  Por isso, nos cultos à Nanã não se usa ferro ( elemento de Ogum) fazendo-se segredo de como o animal a ser sacrificado é morto. Não se usa facas, nem qualquer metal para vitimá-lo. Os homens não são escolhidos por Nana para sua manifestação. E todos, homens e mulheres, a temem e lhe respeitam profundamente, por causa de sua força e dos segredos da vida e da morte que guarda consigo.



É da lama de Nanã que as marisqueiras tiram a vida. Na lama de Nanã, isto é, no mangue, homem não entra. Os manguezais são domínios das mulheres. Na dança ritualística, Nanã se mantém encurvada, posição que diz da sua muita idade. Encurvadas também estão as marisqueiras, na lama ou na praia, à procura dos mariscos que lhes trarão o sustento de casa.
Embora, o mangue, se torne às vezes um lugar triste e sombrio sem ele certamente não existiria a vida marinha. Os manguezais são responsáveis por grande parte da manutenção das espécies do mar e sem eles muitos peixes e micro-organismos não existiriam. O mangue é a fonte de vida do mar.
A vida só existe graças a toda esta essência de feminilidade presente na natureza. Não existe vida sem a mulher. Só a mulher contém o segredo capaz de gerar a vida. Sendo rejeitada por Oxalá (essência criadora masculina) e por Ogum (tékné) Nanã consegue se afirmar o tempo inteiro sob o Orun (céu)e o Aiyê ( terra) pois ela possui algo que os demais não possui: a fecundidade. Vitimada por preconceitos sociais, privada de direitos como educação e saúde, a mulher marisqueira consegue extrair da natureza os mariscos com uma delicadeza e habilidade que muitos homens não saberiam usar... e garantem a sobrevivência de suas famílias.
A mulher e mãe terra são detentoras da vida. Conhecem e detém os segredos da geração. Sem a terra/mulher não existiriam homens. Sem as marisqueiras não existiriam os saborosos pratos da nossa culinária baiana tão querida à nossa gente.
Bendita seja a mulher! Detentora da vida! Lhe é inegável a sua garra, o seu trabalho, a sua ternura, afeto, amor e maternidade. Bendita seja a mulher marisqueira com sua coragem, sabedoria e habilidade que, como Maria Felipe, heroína de nossa independência trazem consigo o sonho da liberdade.
Feliz dia das mulheres a todas as mulheres que carregam o dom da vida e que completam as nossas vidas!

8 de Março, dia das mulheres, sábado, dia dedicado a Nanã.  
Thiago Felipe 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Das águas da criação às águas da renovação: Jesus Cristo e Oxalufan sob o mesmo alá




       "E aqueles que foram visto dançando foram julgados insanos 

por aqueles que não podiam escutar a música" (Nietzsche)


Já é chegado o momento final do ano. Bate à nossa porta um novo ano imerso da esperança de tempos melhores. Comumente e simbolicamente as pessoas usam o branco nas vestes seja por alguma religião ou pelo mero costume motivado pela moda em função do capitalismo. O fato é que, a cor branca, carrega em si uma gama de sentidos e significados. O branco representa a paz na maioria das culturas.Sempre esteve ligado à atmosfera espiritual e à transcendência. A cor branca é a mãe de todas as cores e por isso está relacionada à origem, principio e matriz das coisas. Para gerar o arco-íris um raio de luz branca perpassa um prisma e se desintegra nas sete cores. Girando um disco (disco de Newton) pintado com as cores do espectro passamos a observar apenas uma: o branco.

O branco traz em si todo o sentido da pureza, majestade, beleza, bondade,virgindade, castidade, festa, tranqüilidade, harmonia, renovação, limpeza... É uma cor que combina com todas as outras desde a mais clara à mais escura dada à sua perfeita harmonia. Nas festas do cristianismo, àquelas voltadas a memória da Divindade Maior: Deus, Cristo e o Espírito Santo e também da Virgem Maria o branco é utilizado justamente por traduzir tudo que é puro, santo,importante e casto.
Quando nascemos são os médicos, portadores de fardas brancas que nos recepciona. Os Padres ao iniciar os cristãos na vida eclesial também usam branco. O branco é por excelência a cor primordial da vida e das iniciações. Jesus, o pão da vida,é a pequenina hóstia branca distribuída aos fiéis nas missas. O branco diz do seu nascimento e ressurreição e é usado abundantemente nas liturgias destas celebrações. O branco se relaciona à festa e a vitória "assim na terra como nos céus". Um dos autores da Bíblia, sob a esperança de novos tempos descreve ter visto uma multidão com vestes brancas cantando jubilosamente. Tal é a importância do branco para o cristianismo que o vigário do Filho de Deus,isto é, o Papa, usa esta cor em suas vestes para distingui-lo dos demais bispos e em destaque para a importância do cargo assumido por ele. O branco é a cor de Jesus Cristo relacionando à figura dele todos os atributos da cor: paz, castidade,pureza, iluminação, vida, divindade...

Nas religiões afro-brasileiras, o branco é a cor dos orixás funfuns (palavra yorubá que expressa brancura). Estes orixás são os responsáveis pela criação da natureza sendo os maiores Odudua, Obatalá e Oxalá (também conhecido como Oxalufã) que na verdade tem em comum a mesma essência criadora. Vestem branco justamente por serem "os criadores"já que o branco traz em si todo o sentido de originalidade, criação e primordialidade já explicitados. Conta-se que um dia Oxalá (Orixá da criação)fora fazer uma viagem e não quisera fazer oferendas a Exu (Orixá de caráter genioso). Exu querendo que este lhe prestasse as reverências armou uma série de armadilhas para Oxalá fazendo com que esse se sujasse todo de carvão e dendê.Outro mito conta que Oxalá partiu para visitar seu filho Xangô e fora preso enganadamente sendo trancado em uma sela suja maculando assim suas vestes. Ao orixá maior, portador de toda alvura, pureza e poder foi grave ofensa os fatos acontecidos. Por isso, após sofrer os castigos devido aos maus tratos para com o senhor da criação, realizou-se no reino um ritual para lavar ás suas roupas,devolvendo-lhe toda pureza e reconhecendo-lhe sua majestade e importância para todos. As águas do reino lavaram-lhe as sujeiras e quis o grande orixá que todos os anos se lembrassem das injúrias cometidas a ele. Surgiu daí a grande cerimônia das "Águas de Oxalá" que até hoje ocorre na África e no Brasil.

Foi da água que surgiu a vida. Ela é elemento base da criação. A água é que lava,purifica, renova... A água é quem lava o branco maculado e o torna límpido novamente. Oxalá traz consigo este sentido de pureza, renovação e criação assim como o Cristo que declarou ser a "água viva" capaz de sanar toda a sede do humano e aliviar os seus fardos. Quem bebe muita água tem saúde e um organismo liberto de várias toxinas dado às suas utilidades mais do que terapêuticas. A água tem em si ,assim como o simbolismo do branco, o sentido de primordialidade, originalidade e renascimento. Por isso tanto a água quanto o branco são atribuídos às formas divinas mais supremas.

No entanto, mais que pela superstição, vestir branco na virada do ano é estar disposto a viver um ano novo sob o signo da renovação e do compromisso com a vida. Não é para dar sorte! É para visualizar a vida melhor que se quer viver no ano vindouro. É fazer dentro de si a lavagem de toda mácula causada pelas limitações humanas e se posicionar como um novo homem, uma nova mulher. Vestir branco, por tanto, não é uma atitude espírita ou esotérica. Cristãos,Candomblecistas, Espíritas e Ateus têm o direito de fazê-lo sem se preocupar de estar fazendo o errado ou "traindo" a sua crença.

Pelo Simbólico que tudo une sem misturas ou sincretismo, Jesus Cristo, Oxalá e os homens de bem, podem caminhar unidos, vestidos de branco pela Paz sob o Alá* que cobre o mundo!

Bom Ano Novo para todos!!!

Thiago Felipe Lima da Mata

*Alá:expressão yorubá que nomeia um pano branco estendido que simboliza a proteção Divina

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

POEMA DE OYÁ


Se neste mundo há
lugar que não 
quero dançar
é no balé de Oyá! 

Na dança do vento
onde dança Tempo
de jeito nenhum
eu quero dançar...

Não há o que ouvir
senão o trovejar.
Não há o que dizer
Não quero dizer
Não quero dançar!

Só quero 'oiá' !

Thiago Felipe

sábado, 19 de outubro de 2013

DO SACRIFICIO DOS MÁRTIRES COSMES E DAMIÃO À DOÇURA DOS IBEJIS: A VIDA EM JOGO

A Bahia celebra neste mês de setembro os santos cristãos gêmeos Cosme e Damião com muita alegria, festa e comidaria típica. No entanto antes de qualquer coisa é preciso esclarecer que esta festa é imbuída de simbolismo e sincretismo. Os mártires Cosme e Damião por serem gêmeos se afeiçoaram aos Ibejis da África( também gêmeos). Ibejis são crianças. Duas crianças gêmeas, filhas do rei Xangô e de Yansã são agradadas neste mês no intuito de pedir sempre a proteção e agradecer pelas graças alcançadas no geral em função dos nascituros. 

           
 É comum ouvir dizer que mulheres que não podiam engravidar prometeram Caruru a São Cosme (Ibeji) e conseguiram, por isso pagam durante suas vidas na terra a promessa feita todos os anos. O caruru é uma comida feita com quiabos e dendê juntamente com outros acompanhamentos. Quiabo é a comida de Xangô que representa a "vida" e o azeite dendê representa a "força", a vitalidade o axé. Os Ibejis então são filhos da vida. São Cosme e Damião eram médicos que cuidavam dos doentes restituindo-lhes a vida na antiguidade. O que perpassa as festividades de Cosme e Damião e dos Ibejis é, pois, justamente a VIDA. Da promessa daquela mãe que não podia engravidar à possibilidade do nascer graças a proteção das crianças sagradas. Das complicações do parto ao feliz êxito da chegada dos mais novos. A Vida vinda de Xangô com o calor e a energia de Iansã se faz re-vivida nos Ibejis. Os Ibejis são o renascimento, a possibilidade de um novo nascer, de uma nova vida.

           
 Os doces são para relembrar que é gostoso e bom viver. A vida com doçura é prazerosa! E são justamente as crianças, com suas brincadeiras e alegria que fazem a festa e nos ensinam a ver toda esta doçura da vida. As cores vistosas atentam para a alegria e festa justamente como, em geral, se quer viver.


           
 Ao ir a algum "caruru de São Cosme" pense um pouco nestes breves aspectos. Agradeça pela vida e tente saboreá-la como se faz a um bombom. Se não comunga com a crença de Ibejis não critique e nem demonize a festa, pois, é sinal de ignorância total... Não fale mal do que você não conhece! Se esforce por compreender e respeitar! O que está em jogo, como já foi dito, é a VIDA! E isto todos nós temos em comum!!!!!


           
 Viva São Cosme!!!Viva São Damião!!! Viva os Ibejis!!!Viva os erês!!!!Viva as Crianças!!!!Viva a vida!!!!

           
 Thiago Felipe Lima da Mata, 26 de Setembro, dia de São Cosme e Damião e dos Ibejis